Após velório, corpo do prefeito Bruno Covas é levado em cortejo pelas ruas de SP

Cerimônia foi restrita aos amigos e familiares. Tucano enfrentava câncer no sistema digestivo e estava internado desde 2 de maio no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, quando se licenciou do cargo. Ele deixa um filho de 15 anos.

Por: Paula Paiva Paulo, G1 SP — São Paulo

O corpo do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), foi velado na tarde deste domingo (16) na sede da Prefeitura de São Paulo, no Viaduto do Chá, na região central da cidade, onde ele exercia o cargo de chefe do Executivo municipal.

 

O corpo do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), é transportado em um carro do Corpo de Bombeiros ao deixar o prédio da Prefeitura e passar pelo Viaduto do Chá, na região central da capital, neste domingo (16) — Foto: Nelson Antoine/Estadão Conteúdo

O corpo do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), é transportado em um carro do Corpo de Bombeiros ao deixar o prédio da Prefeitura e passar pelo Viaduto do Chá, na região central da capital, neste domingo (16) — Foto: Nelson Antoine/Estadão Conteúdo

Covas morreu às 8h20 deste domingo aos 41 anos, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Desde 2019, ele lutava contra um câncer no sistema digestivo com metástase nos ossos e no fígado. Deixa o filho Tomás, de 15 anos.

VÍDEO: O adeus emocionado e comovente de Tomás Covas ao pai

O adeus emocionado e comovente de Tomás Covas ao pai

Tómas Covas, filho do prefeito Bruno Covas, durante velório na sede da Prefeitura de SP — Foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Tómas Covas, filho do prefeito Bruno Covas, durante velório na sede da Prefeitura de SP — Foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

O corpo do prefeito chegou ao Edifício Matarazzo às 13h13 e foi levado ao hall monumental do 3º andar, onde ocorreu uma homenagem de familiares e amigos mais próximos. Na chegada do cortejo, o corpo foi aplaudido pelas pessoas que estavam no local.

Durante a missa celebrada pelo padre Rosalvino, Tomás foi abraçado por Gustavo Pires, assessor especial de Covas e amigo. Tomás usava a camiseta dos Tucanáticos em homenagem à juventude do PSDB.

Corpo do prefeito Bruno Covas chegando ao Edifício Matarazzo, no Centro de SP — Foto: Aloisio Mauricio/Estadão Conteúdo

Corpo do prefeito Bruno Covas chegando ao Edifício Matarazzo, no Centro de SP — Foto: Aloisio Mauricio/Estadão Conteúdo

O ex-vereador Mário Covas Neto, tio de Bruno, participou da cerimônia com a leitura de trechos da missa. A mãe de Covas, Renata Covas Lopes, seu pai Pedro Mauro Lopes, e seu irmão, Gustavo Costa Lopes, acompanharam a cerimônia. O governador João Doria e sua mulher, Bia, também estiveram presentes, além do atual prefeito Ricardo Nunes (MDB). A cerimônia durou cerca de 50 minutos.

Sobre o caixão fechado foram colocadas as bandeiras do Brasil e de São Paulo. O filho Tomás ajudou a carregar o caixão até o carro do Corpo de Bombeiros. Simpatizantes do prefeito aplaudiram a saída do corpo para o cortejo pelas principais ruas do Centro de São Paulo. Na Avenida Paulista, o carro dos bombeiros foi cercado por simpatizantes que queriam se despedir e seguravam faixas e cartazes. Em seguida, o cortejo seguiu para Santos, no litoral paulista.

Bruno Covas, em foto de 19 de novembro de 2020. — Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão Conteúdo/Arquivo

Bruno Covas, em foto de 19 de novembro de 2020. — Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão Conteúdo/Arquivo

Corpo do prefeito Bruno Covas é levado em cortejo sobre carro de bombeiros diante da Prefeitura de SãoPaulo, acompanhado por populares — Foto: Miguel Schincariol/AFP

Corpo do prefeito Bruno Covas é levado em cortejo sobre carro de bombeiros diante da Prefeitura de SãoPaulo, acompanhado por populares — Foto: Miguel Schincariol/AFP

Prefeito Ricardo Nunes durante o velório de Bruno Covas — Foto:  ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Prefeito Ricardo Nunes durante o velório de Bruno Covas — Foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

O enterro, também restrito à família, será no Cemitério do Paquetá, em Santos, onde foi sepultado o corpo de Mário Covas, ex-governador de São Paulo e avô de Bruno que também morreu em decorrência de um câncer, em 2001.

Na sede da prefeitura, as bandeiras do estado e do município foram hasteadas a meio mastro em sinal de luto. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) assumiu o cargo após ato da Mesa Diretora da Câmara Municipal de São Paulo e seu primeiro ato foi decretar luto oficial de sete dias na cidade. O governador João Doria (PSDB) também decretou luto oficial de sete dias no estado.

Movimentação de pessoas na porta da entrada principal da Prefeitura de SP onde é velado o corpo do prefeito Bruno Covas — Foto: Renato Cerqueira/Estadão Conteúdo

Movimentação de pessoas na porta da entrada principal da Prefeitura de SP onde é velado o corpo do prefeito Bruno Covas — Foto: Renato Cerqueira/Estadão Conteúdo

Internação

Covas estava internado no Hospital Sírio-Libanês, no Centro da capital paulista, desde 2 de maio, quando se licenciou da prefeitura. Na sexta-feira (14), ele teve uma piora no quadro de saúde e a equipe médica informou que seu quadro havia se tornado irreversível.

 

Familiares e amigos de Covas permaneceram no hospital desde então. Nas últimas horas de vida, o prefeito recebeu sedativos e analgésicos para não sentir dores.

Na noite de sexta (14), um padre chegou a fazer a unção dos enfermos, um sacramento católico. Durante a noite de sábado (15), representantes de diversas religiões participaram do ato ecumênico na porta do hospital, que durou 30 minutos e terminou com a oração Pai Nosso.

 — Foto: Guilherme Luiz Pinheiro/G1

— Foto: Guilherme Luiz Pinheiro/G1

Covas teve o câncer diagnosticado em outubro de 2019, após ser internado com uma infeção na pele chamada erisipela. O tumor regrediu, mas, neste ano, novos nódulos foram encontrados no fígado, na coluna e na bacia.

O tucano é o primeiro prefeito da cidade de São Paulo a morrer durante o mandato. Ricardo Nunes (MDB), o vice que hoje é prefeito em exercício, irá assumir definitivamente o cargo.

Neto favorito de Mário Covas

Nascido em Santos, no litoral paulista, em 7 abril de 1980, Covas era filho de Pedro Lopes, engenheiro da Autoridade Portuária de Santos, e Renata Covas, a única filha mulher de Mário Covas e Lila.

Era o neto favorito de Mário Covas, que foi prefeito da capital na década de 1980 e governador do estado entre 1995 e 2001.

Mário Covas com o neto, Bruno Covas, no colo em vídeo de 1983. — Foto: Acervo TV Globo

Mário Covas com o neto, Bruno Covas, no colo em vídeo de 1983. — Foto: Acervo TV Globo

Aos 9 anos, passou a integrar o “Clube dos Tucaninhos”, cuja carteirinha de filiação era guardada por ele como recordação até depois de adulto.

Aos 14 anos, Bruno Covas deixou o litoral e foi morar na cidade de São Paulo com o avô, no Palácio dos Bandeirantes, sede oficial do governo paulista. De acordo com funcionários, Bruno era “bem mais tranquilo para lidar do que o avô”.

Ficha de filiação de Bruno Covas ao Clube dos Tucaninhos — Foto: Divulgação/PSDB

Ficha de filiação de Bruno Covas ao Clube dos Tucaninhos — Foto: Divulgação/PSDB

 

Cursou o ensino médio no Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais da capital, onde conheceu um de seus grandes amigos, Luiz Álvaro Salles Aguiar de Menezes, que se tornou seu secretário municipal de Relações Internacionais décadas mais tarde.

Menezes disse que na escola os colegas se surpreendiam ao descobrir que Bruno era neto do governador. “Acho que eles esperavam uma figura engomadinha, e não aquele cabeludo com camiseta de rock n’roll sem manga que estudava com a gente”, contou, em entrevista ao SP1.

Naquela época, o jovem Bruno Covas não se interessou em participar do grêmio estudantil do colégio.

Covas durante feijoada da escola de samba Leandro de Itaquera, em São Paulo, em 2003. — Foto: Vidal Cavalcante/Estadão Conteúdo/Arquivo

Covas durante feijoada da escola de samba Leandro de Itaquera, em São Paulo, em 2003. — Foto: Vidal Cavalcante/Estadão Conteúdo/Arquivo

Casamento, separação e 1ª vitória eleitoral

 

Covas graduou-se em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e iniciou a carreira política em 2004, quando se candidatou a vice-prefeito de Santos na chapa do correligionário Raul Christiano.

Bruno Covas sentiu o gosto da vitória nas urnas pela primeira vez aos 26 anos, como deputado estadual. Foi reeleito aos 30, com o maior número de votos. Depois, assumiu o cargo de secretário Estadual do Meio Ambiente na gestão Geraldo Alckmin (PSDB), e, em 2014, venceu a eleição para deputado federal. No Congresso Nacional, votou pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT).

Bruno Covas na Assembleia Legislativa de São Paulo em foto de maio de 2006. — Foto: Sebastião Moreira/Estadão Conteúdo

Bruno Covas na Assembleia Legislativa de São Paulo em foto de maio de 2006. — Foto: Sebastião Moreira/Estadão Conteúdo

Eleição para a prefeitura e novo estilo de vida

 

Covas não completou o mandato como deputado federal. Voltou a São Paulo e se candidatou a vice-prefeito na chapa de João Doria (PSDB), em 2016. A dupla venceu no primeiro turno.

Covas ao lado do então prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), em entrevista à imprensa em novembro de 2017. — Foto: Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo

Covas ao lado do então prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), em entrevista à imprensa em novembro de 2017. — Foto: Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo

Em 2017, Covas mudou o visual e o estilo de vida: assumiu a careca, passou a seguir uma dieta radical que o levou a perder mais de 16 quilos e iniciou a prática Mahamudra, uma linha esportiva que alia autoconhecimento e exercícios físicos. Também ficou conhecido como “baladeiro”, devido à presença frequente em festas e casas noturnas.

O tucano assumiu a Prefeitura de São Paulo na sequência, em abril de 2018, quando Doria deixou o cargo para se candidatar a governador do estado.

A primeira grande missão à frente da Prefeitura ocorreu no feriado de 15 de novembro de 2018, após um viaduto de 2 metros ceder sobre a Marginal Pinheiros.

Bruno Covas com o filho Tomás durante o festival Lollapalooza, em 2019. — Foto: Celso Tavares/G1

Bruno Covas com o filho Tomás durante o festival Lollapalooza, em 2019. — Foto: Celso Tavares/G1

Infecção na pele e diagnóstico de câncer

 

Em 19 de outubro de 2019, o prefeito foi diagnosticado com erisipela, uma infecção na pele. Ele foi medicado e liberado, mas, uma semana depois, foi internado. A infecção havia evoluído para trombose venosa profunda (coágulos) na perna direita.

Bruno Covas no Hospital Sírio-Libanês durante a internação, em novembro de 2019.  — Foto: Divulgação/Prefeitura de SP

Bruno Covas no Hospital Sírio-Libanês durante a internação, em novembro de 2019. — Foto: Divulgação/Prefeitura de SP

Os coágulos subiram para o pulmão, causando o que é chamado de embolia.

Foi durante os exames para localizar os coágulos que médicos detectaram o câncer. O nódulo estava na cárdia, região entre o esôfago e o estômago, com metástase no fígado e nos linfonodos.

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Tratamento e eleição

 

Em 29 de outubro de 2019, Bruno Covas iniciou o tratamento contra o câncer, que previu inicialmente 8 sessões de quimioterapia, sem deixar o cargo de prefeito e despachando por meio de assinaturas digitais. Em dezembro de 2019, a equipe médica disse que o tumor regredira de modo expressivo. Dois dias depois, contudo, ele foi para a UTI após um sangramento no fígado. As sessões continuaram e, apesar do episódio, a equipe continuava informando que ele apresentava “ótimo quadro geral”.

Em 2 de janeiro de 2020, ainda em tratamento, o prefeito anunciou que seria candidato à reeleição à Prefeitura de São Paulo. Adiante, suas principais promessas de campanha foram zerar a fila de creches, criar unidades de saúde (UPAs e UBSs), um programa de moradias populares na cidade, um sistema de transporte público por barcos e avançar no plano de privatizações.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), durante coletiva de imprensa em janeiro de 2020. — Foto: Reprodução/TV Globo

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), durante coletiva de imprensa em janeiro de 2020. — Foto: Reprodução/TV Globo

No mês seguinte, ao término da 8ª sessão de quimioterapia, os tumores do fígado e da região da cárdia não apareceram nos exames. Já os linfonodos, que são gânglios, apresentaram aumento, indicando que o câncer persistia.

Uma nova fase do tratamento foi iniciada, com a imunoterapia, que visa potencializar o sistema imunológico para atacar células cancerígenas.

Em maio de 2020, o prefeito chegou a ser hospitalizado devido a um desconforto abdominal – os exames indicaram que se tratava de uma colite, inflamação do cólon, parte central do intestino grosso.

Covas chegou a se mudar para a sede da Prefeitura de São Paulo com a intenção de atuar em tempo integral no combate à pandemia do coronavírus, que avançava no mundo. No mês seguinte, foi diagnosticado com Covid-19, mas não teve sintomas.

Em julho, Covas informou que o tumor estava regredindo e passou a se concentrar na campanha eleitoral. Mesmo em tratamento, fez muitas agendas externas. Sempre com máscara. Mas muitos desses compromissos ocorreram em ambientes cheios e fechados e por um longo período de tempo.

O tucano obteve 32,85% dos votos e foi para o segundo turno com Guilherme Boulos (PSOL), que recebeu 20,24%. Ele venceu em todas as 58 zonas eleitorais da capital, incluindo a periferia.

Bruno Covas (PSDB) comemora vitória no 2º turno na capital paulista em novembro de 2020. — Foto: Fábio Tito/G1

Bruno Covas (PSDB) comemora vitória no 2º turno na capital paulista em novembro de 2020. — Foto: Fábio Tito/G1

Foi reeleito com 59,38% dos votos, 3 milhões, com um leque de alianças formado por 11 partidos e maioria na Câmara Municipal.

“São Paulo disse ‘sim’ à democracia. São Paulo disse ‘sim’ à ciência, disse ‘sim’ à moderação, disse ‘sim’ ao equilíbrio”, discursou.

 

Em entrevista ao “Em Foco”, da GloboNews, descartou lockdown na cidade de São Paulo devido, especialmente, a uma suposta impossibilidade de articular a mesma medida em toda a região metropolitana (assista a trecho da entrevista no vídeo abaixo). Àquela altura, a capital enfrentava um novo aumento do número de casos de Covid-19, que culminou em uma 2ª onda da doença.

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Em fevereiro, exames mostraram sucesso da radioterapia no controle dos linfonodos, mas foi detectado um novo nódulo no fígado. A imunoterapia foi interrompida e Covas reiniciou a quimioterapia.

Abril de 2021, ele foi internado depois que os médicos encontraram novos pontos de câncer nos ossos e no fígado, embora o prefeito estivesse sem sintomas, e ainda apto a seguir suas atividades à distância.

Dias mais tarde, ele apresentou uma piora no quadro de saúde, quando foi diagnosticado com líquido nos pulmões e no abdômen devido a uma inflamação no tumor do fígado. Covas precisou continuar no Sírio Libanês para retirada do líquido e para receber alimentação pela veia durante as madrugadas.

Transmitindo coragem e confiança no tratamento, ele postou uma foto do filho nas redes sociais, e disse que continuava a luta pela vida com “vontade gigante de vencer”.

Covas e o filho, Tomás, durante internação no Hospital Sírio-Libanês, em 4 de maio.  — Foto: Reprodução/Instagram

Covas e o filho, Tomás, durante internação no Hospital Sírio-Libanês, em 4 de maio. — Foto: Reprodução/Instagram

A drenagem do líquido deu certo e Bruno Covas recebeu alta ainda em abril, mas, no dia 2 de maio, decidiu se afastar do cargo novamente, dessa vez por 30 dias devido aos efeitos colaterais do tratamento.

No dia seguinte, ele foi transferido para a UTI do hospital Sírio-Libanês e intubado após a descoberta de um sangramento no estômago. Os médicos identificaram uma úlcera junto ao tumor original, na cárdia. As sessões de quimioterapia foram suspensas.

Durante todo o tratamento, o prefeito se mostrou otimista, afirmando diversas vezes que “não tinha dúvidas de que vou vencer mais este desafio”, mesmo sabendo que “a guerra estava longe de terminar”, e sempre agradeceu ao apoio da equipe médica responsável pelo tratamento e às pessoas que oravam por ele.

 

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